Casa 12 ou Éter Esquartejado
Era uma casa
Muito fechada
Continha o Tudo,
Continha o Nada
Nem todo o mundo
Entrava, não
Porque era misteriosa
Como um vulcão
Se alguém
Entendeu a Rede
É porque na casa
Um dia esteve
E aquele que
Descobriu o π
Com certeza,
Já esteve ali
Mas era feita
De prata e ouro
Nela escondiam-se
Muitos tesouros
Mas era feita
De ferro e bronze
Na rua do Louco,
Número 12
2019
Olhou
para o pé. Analisou o formato irregular da unha e percebeu um
pequeno inseto preto caminhando com dificuldade sobre os pelos do
dedão. Pensou em matá-lo com o polegar da mão direita, com o
mesmo prazer que tinha quando matava os piolhos da sua sobrinha,
mas ficou com pena do coitadinho que recém agora conseguia pisar
em “terra” firme, porém um pouco oleosa. Lembrou-se que
estava atrasado para o trabalho e levantou às pressas para
guardar o corta-unhas com um hóspede em seu corpo.
Enquanto
abria a porta do guarda-roupa onde guardava na primeira gaveta
seus objetos de higiene pessoal - junto às meias, às cuecas e as
camisinhas quase vencidas - sentiu as pisadinhas do que sua mente
informava-lhe agora ser uma formiga. A cócega mais uma vez
deu-lhe um impulso assassino e chegou a levantar a perna na
intenção de acabar de vez com aquela frescura de piedade. Como
que intuitivamente, o bichinho parou sua caminhada. E por talvez
um segundo estavam ambos com um de seus membros inferiores
levantados, cada um em sua escala e em sua perspectiva. A
diferença era que o homem tinha apenas uma única perna para
dar-lhe o apoio necessário, enquanto o inseto ainda tinha mais 7
que lhe suportavam o peso.
Como lembrou-se que
estava atrasado no mesmo momento que levantou a perna, a
concomitância desses dois eventos fez com que seu corpo se
desequilibrasse e ele caísse no chão a um centímetro na parte
inferior do guarda-roupa. A consciência da gravidade do incidente
fez com que ficasse imóvel por alguns minutos com a bochecha
colada no piso de madeira envernizado vendo o reflexo do
ventilador de teto que girava lentamente.
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A – Então tá!
B – Então tá o quê?
A – Que quê?
B – Que que quê?
A – Oh miséria!!! Então está o quê? O que você quer dizer com quê? Você precisa se aprofundar mais na análise do discurso, hein?
B – Que discurso? Não estou fazendo nenhum discurso!
A – Não estou falando no discurso nesse aspecto.
B – De qual aspecto você está falando, então?
A – No sentido da análise da fala no momento em que se está falando.
B – Quê?
A – Que o quê?
B – Que que o quê?
A – Credo, que porra é essa que circula, hein?
B – O que circula?
A – A nossa conversa, ora.
B – É né?
A – É!
B – Será que não tem alguma coisa a ver com a nossa posição?
A – Como assim? Que posição?
B – A nossa posição, ora!
A – Como assim, cara? A de locutor e interlocutor?
B – Que locutor, mané?! Isso não é programa de rádio!
A – Não estou falando nesse sentido de locutor, mas do ponto de vista da... Deixa pra lá, esquece! Que posição, então?!
B – A nossa posição aqui sentados na sala!
A – Caralho, que zérruelice é essa? O que que o cu tem a ver com as calças, B?
B – Ué, não sei! Não é você que sempre vem com super teorias inusitadas que justificam tudo, mesmo que eu não entenda lhufas? Achei que...
A – Sim, você não entende porque é um azedo acadêmico. Minhas suposições estão sempre embasadas em algum teórico respeitado ou em pressupostos gerais da ciência?
B – (gargalha) Pressupostos gerais da ciência? Se você se olhasse no espelho e visse a sua posição? Parece um galo em vias de galar!
A – Deixa de ser ridículo!
B – Ridículo é você que está sempre...
A – Sempre?!
B – Sempre...
A – Sempre?!
B – Sempre....
A – Sempre?!
B – Sempre...
SILÊNCIO
B – Sempre...
A – Sempre?!
SILÊNCIO
B – Sempre querendo ser...
A – Ser o quê?
B – Ser isso que você é.
A – Isso?
B – Isso ou aquilo, sei lá...
A – Pera lá que agora a circulação tá centrífuga (B gargalha muito e intercala com um som de máquina, girando um dos braços em vórtex como se estivesse imitando uma centrífuga). Como assim sei lá?! Isso ou aquilo?
B – Ou aquilo outro! (Zombando de A, ao perceber sua vulnerabilidade).
A – Ah é?! Então tá!
B- Então tá o quê?!
Dos
dois pontos que penetraram na largura do nervo, três deles não
pularam fora. Claro que antigamente as princesas moravam em
castelos. Portanto, no que concerne à Igreja Católica, dois
padres começaram a cutucar as ovelhas com palitos de fósforo.
Levando
em consideração o que foi dito anteriormente, a literatura não
abriu caminho para as sardinhas enlatadas, já que os
ornitorrincos não discutem provérbios quando estão almoçando.
Eu particularmente já descobri maravilhas enquanto julgava o
herói da história, porém assumo a minha homossexualidade para
as formigas que gostam de me ouvir de vez em quando, quando não
estão muito cansadas.
Agora
mudando de assunto, piolhos não regeneram com fins científicos.
Eles, ao contrário, discorrem muito bem sobre a panaceia
eletrônica da contemporaneidade. Antes de entrar aqui, eu –
como bom vegetariano que sou – não conquistei muitos brindes.
Quisera eu penetrar dentro das camadas do exercício vernáculo,
porém há restrições. E restrições precisam ser respeitadas,
não é mesmo? Bom, fora da loucura há sempre alucinógenos
penetrantes convidando para um festejar mais democrático. Mas
esse é um outro assunto a ser abordado mais tarde nesse artigo
acadêmico de segunda ordem.
De
qualquer modo, não há como constatar se a Inquisição destituiu
o poder do Clero, já que nas alfaces há sempre a possibilidade
de encontrarmos alguma lesma escondida. Os outros que lá estavam
já não tinham mais como plantar abóboras, portanto resolveram
construir uma fábrica de lama! Sendo assim, é melhor esconder
aquilo que não se tem do que admoestar as ovelhas com favas de
plantação alheia.
Embora
me seja custoso retomar alguns assuntos que não me dizem
respeito, pensar duas vezes antes de dizê-los custa-me muito
mais. Nesse sentido, antes de fugir, preciso colocar chinelos. Se
antes de anoitecer não há condições
de beber a água do rio - pois a luz que brota do arquipélago é
muito tênue - também não serei eu a escolher entre um e outro.
Era só o que me faltava! Mas isso são coisas para se dizer
depois. Hoje surpreendi-me com coisas boas. Duas doses de whisky
me fizeram encontrar a paz. Já não há mais nada para dizer
depois que ele chegou e me possuiu pelas costas. Detesto essas
coisas de incitação à violência. Se é para ejacular, que
encontre na pia um pirulito e chupe. Havia momentos em que a
lucidez me brotava, mas querer agora encontrar a paz era um
direito não adquirido. De todos os orgasmos que me surgiram, a
única dose foi a violeta que quase me curou.
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O
que é a performance?!
Aquilo
que acho que é a performance,
mesmo
que equivocadamente,
Ainda
assim é performance?
Se
o que faço não é performance para o outro,
mas
para mim é performance,
Ainda
assim
O
que faço é performance?
O
que é a performance?
Aquilo
que os performistas dizem que é performance?
Aquilo
que os críticos dizem que é performance?
Andar
pelado arrastando uma televisão
Basta
para eu ser um performer?
E
se eu não quiser terminar o meu pensamento?
Aqui-e-agora
Posso
fazer performance com as letras?
Se
eu desrespeitar a rrégra
Ortográfica
Morfológica
Sintática
Semântica
Estilística
Vaitomarnoteucuzófila
Posso
ser performer?
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