Casa 12 ou Éter Esquartejado
Era uma casa
Muito fechada
Continha o Tudo,
Continha o Nada
Nem todo o mundo
Entrava, não
Porque era misteriosa
Como um vulcão
Se alguém
Entendeu a Rede
É porque na casa
Um dia esteve
E aquele que
Descobriu o π
Com certeza,
Já esteve ali
Mas era feita
De prata e ouro
Nela escondiam-se
Muitos tesouros
Mas era feita
De ferro e bronze
Na rua do Louco,
Número 12
outubro 2013
À beira de tornar-me balzaquiana
Transformo-me em bode
E não me preocupo nem com o avançar da idade
Muito menos com o nascer das guampas
Nunca me pensei fáunico, nem fálico
Se um dia em devaneios loucos tivera pensado em chifres
Estes teriam sido ousados, altivos, robustos
Não estas guampas baixas e de porte mediano
E se tivesse pensado em acessórios cabeçais
Talvez tivesse quisto uma auréola cínica
Embora esteja sozinho no meio da mata
Contento-me com a caudarabo de peixe
Que nasce escamosa entre meus pelos e carrapichos
Que me torna híbrido e me incita ao mar
E quando penso que o extraordinário finda
Eis que recolho meu arco e flecha
E relincho!
A força que não devoto
A admirar a tua beleza
É a mesma que me embeautece
E me apetrecha
Assim, não me sugas
Oh, medusa de serpentes
Suaves e cacheadas
Oh, musa de sexo masculino
A quem vejo somente
Através de reflexos
Há muito que desisti
De esvair-me aos quatro cantos
Em tua busca cansável
Agora hei de segurar-me
Como um centauro às avessas
Com mãos e pernas livres
Mas com embocadura
E anteolhos na cabeça
Sensação do estranho virando do avesso
Um outro olhar sobre e sob as coisas
Uma percepção da própria percepção
Um chegar-se aconchegado num outro canto escuro
Mas não triste
Escuro porque sideral
Escuro porque se dá de olhos fechados
É nesse universo por onde percorro
Que encontro
O que há de recôndito em mim!