agosto 2011

CANTO PRIMEIRO

Senhora das Portas
Arquetípica e Misteriosa 
A Vó, a Mãe e a Filha
Flor de Mandrágora, 
Som de Egrégora 
E grito de Górgona

Partenogênese Sagrada 
Efígie, Esfinge, 
Serpente Esfumaçada
Filósofa Nascida
Semente enterrada

Mater, de onde venho?
Pater, para onde vou?

Em busca de respostas
A velha varria o Tempo
A mulher dançava a Ave
A criança buscava o Círculo

Senhora das Janelas
Das escadas, das mazelas
Senhora de coração pulsante
Senhora dos Navegantes
Dos navios negreiros
Piratas e Veleiros

Senhora de todos os amores
De todos os colonizados 
E todos os colonizadores 

Senhora de todas as horas
Senhora de todas as artes 
Senhora de todas as glórias

Valdenir Gonçalves




Coragem de rasgar-se inteiro
E manter-se uno na multidão
Plantar-se de todo o corpo
- Semente em vias de despertar -
Num solo úmido e escuro
Entregar-se à dor do descascar da pele viva
E do brotar da nova derme
Perfurando o que ainda reluta
Em manter-se carne.

Valdenir Gonçalves

Como uma faísca
Como uma lasca de vento
Meu mergulho não é mais de albatroz
Agora enterro-me no mar
E enáguo-me na terra
Rasgo com o vértice feito por meu caduceu
Uma frincha nas ondas
Espiralada com a força de minhas fagulhas
E vou num voo aquático
E lá
Danço uma falsa valsa
Com os seres translúcidos
De luz azul

Valdenir Gonçalves





Senhor, fazei-me instrumento de vossa consciência.

Onde houver ódio, que eu leve a consciência do ódio;

Onde houver ofensa, que eu leve a consciência da ofensa;

Onde houver discórdia, que eu leve a consciência da discórdia;

Onde houver dúvida, que eu leve a consciência da dúvida;

Onde houver erro, que eu leve a consciência do erro;

Onde houver desespero, que eu leve a consciência do desespero;

Onde houver tristeza, que eu leve a consciência da tristeza;

Onde houver trevas, que eu leve a consciência das trevas;

Ó Mestre, fazei que eu procure mais

Entender a ação das forças em mim, que tentar controlá-las;

Compreender o que está dentro, para compreender o que está fora

Amar a mim mesmo para que possa ser amado

Pois é livrando-nos da culpa que perdoamos a nós mesmos

É morrendo em vida que se vive a eternidade.
 
 "Valdenir Gonçalves"




Antes eu não me cabia
Mal o mundo me enchia
E todos os meus líquidos e fluidos
Esparramavam-se fora de mim
Num transbordar de água
Desperdiçada
Achei que o meu total fosse o cheio,
E o que dele sobrasse
Fosse apenas o resto
Como se eu fosse uma conta matemática.
Resolvi virar a equação
De cabeça para baixo
E hoje meu excesso é parte
Irresistível do todo
E calculo meu mundo
ora com giz
ora num ábaco abandonado

Valdenir Gonçalves



Então ele me diz:
"- Me liga e a gente se encontra, e a gente se vê e a gente se come!",

Como se pensasse:
"- Ah, já que não consigo mais encontrar peixes apreciáveis e dignos de meu paladar refinado, resolvi mordiscar este gélido krill."

Então, respondo-lhe:
"- Não, obrigado, hoje à noite tenho um encontro com uma ostra dentro do ventre de uma baleia!"

Valdenir Gonçalves



Sou como se fosse um representante leigo e estúpido de Mim mesmo.
Represento-Me ao mundo como menino que desce na essência, olha irrequieto e impaciente para o rosto sem face de meu Eu.
E volta como um mergulhador sem escafandro que nem tempo teve de olhar o fundo do mar.
E se me perguntam qual a minha beleza, respondo que há cores belas, há distintas formas, há coisas que se mexem inquietas e reluzentes lá no fundo de Mim, porém não tenho ideia de Minhas tonalidades, não sei dos Meus ângulos, tampouco conheço a força que Me dá luz e movimento.

Valdenir Gonçalves

É claro que não tiveste sequer um vislumbre do quanto me tocaste.
Creio que me imaginavas um dândi antes de conhecer-me.
Ou talvez um ser mais profundo.
Compreendo a tua decepção ao encontrar-me menino, cheio de dúvidas e incertezas.
Compreendo a tua decepção ao encontrar-me senhor, cheio de seriedades e silêncios carrancudos.
Queria dizer-te o quanto o universo era paradoxal e o quanto os meus movimentos inquietos eram uma extensão de minha linguagem capenga.
Meu corpo, pequeno e ágil, era minha única poesia e enquanto passavas tua mão em minhas costas e enquanto minha cabeça descansava em tuas pernas, achei que era compreendido.
Foste embora, apesar de nunca teres chegado.
Recuso-me a acreditar que este você-pós seja o mesmo que me acolhera com os olhos e as mãos.
Este você-pós que me ignorou como se minha meninice fosse infantilidade,
como se minha velhice silenciosa fosse ignorância.
Farei de teu descaso o silêncio sábio que surge quando não há palavras a serem ditas.
Farei de teu esquecimento, o desapego dos esclarecidos.
E, assim, esqueço-me e desapego-me de ti.
És, agora, pó.
E tua profundidade tornou-se quimera.
E, enquanto te dispersas na atmosfera em inúmeras partículas,
Condenso-me em matéria pesada e afundo-me.

Valdenir Gonçalves