Casa 12 ou Éter Esquartejado
Era uma casa
Muito fechada
Continha o Tudo,
Continha o Nada
Nem todo o mundo
Entrava, não
Porque era misteriosa
Como um vulcão
Se alguém
Entendeu a Rede
É porque na casa
Um dia esteve
E aquele que
Descobriu o π
Com certeza,
Já esteve ali
Mas era feita
De prata e ouro
Nela escondiam-se
Muitos tesouros
Mas era feita
De ferro e bronze
Na rua do Louco,
Número 12
2013
À beira de tornar-me balzaquiana
Transformo-me em bode
E não me preocupo nem com o avançar da idade
Muito menos com o nascer das guampas
Nunca me pensei fáunico, nem fálico
Se um dia em devaneios loucos tivera pensado em chifres
Estes teriam sido ousados, altivos, robustos
Não estas guampas baixas e de porte mediano
E se tivesse pensado em acessórios cabeçais
Talvez tivesse quisto uma auréola cínica
Embora esteja sozinho no meio da mata
Contento-me com a caudarabo de peixe
Que nasce escamosa entre meus pelos e carrapichos
Que me torna híbrido e me incita ao mar
E quando penso que o extraordinário finda
Eis que recolho meu arco e flecha
E relincho!
A força que não devoto
A admirar a tua beleza
É a mesma que me embeautece
E me apetrecha
Assim, não me sugas
Oh, medusa de serpentes
Suaves e cacheadas
Oh, musa de sexo masculino
A quem vejo somente
Através de reflexos
Há muito que desisti
De esvair-me aos quatro cantos
Em tua busca cansável
Agora hei de segurar-me
Como um centauro às avessas
Com mãos e pernas livres
Mas com embocadura
E anteolhos na cabeça
Sensação do estranho virando do avesso
Um outro olhar sobre e sob as coisas
Uma percepção da própria percepção
Um chegar-se aconchegado num outro canto escuro
Mas não triste
Escuro porque sideral
Escuro porque se dá de olhos fechados
É nesse universo por onde percorro
Que encontro
O que há de recôndito em mim!
Eu só sei que sou!
O resto eu não sei
Eu só sei que sou!
Se os outros são ou não são,
Eu não sei
Eu só sei que sou!
Se os outros são mais ou menos que eu,
Mais ou menos o quê?
Isto eu também não sei,
Pois eu só sei que sou
O que será que será?
Eu não sei
Eu só sei que sou
O que eu quero é bom ou ruim?
Eu não sei
Eu só sei que quero
E se quando quero
Acho que devo deixar de querer
Eu deixo de querer
Querer o quê?
Isto eu não sei
Eu só sei que sou!
Deus não criou o mundo em sete dias!
Criou em oito!
Até o sétimo fez tudo o que tinha pra ser feito.
No oitavo, ficou brincando:
Foi aí que criou a zebra, o ornitorrinco, a girafa, o camaleão...
E foi pro meio da floresta e fez umas coisas engraçadas:
Uns bichinhos com jeito de pau, outros com jeito de folha
E mais outros que, espertos, imitavam seus primos furiosos para se protegerem
Depois pulou no mar com pincéis, tintas e massinha de modelar
E fez um catatau de serezinhos diferentes
Uns com forma de pedra
Outros com cara de mau
E fez listas
E fez olhos falsos
E depois deu o material pro homem mesmo brincar:
E ele fez deuses com cara de bicho
Fez bichos com cara de deuses
E criou mulheres com rabo de peixe
E homens com cara de touro
Ou corpo de cavalo
E assim tudo foi
E assim tudo é
E assim tudo será:
Um grande troca-troca de pincéis
Palavra rude de tonalidade áspera
Sutil promessa em relevo branco.
Quando aponta dormente
encontra a ponta reversa,
Um ponto em pranto promete o fim
Máscara étonnante
Por fim, provocante
Tortas mãos mortas marcam a linha
Porcelana
Porta de prata que lacra cortante e atroz
O que está escondido no subsolo
Ela branca, pálida e de negro cabelo
Que esvoaça entre os olhos
Nua entre trapos cinzentos
Nua a peça escura e ranzinza
Vejo os dois lados
Vejo de cima e de baixo
Vejo os seus olhos verdes.
Deus é um menino
Que inventou de se criar
Por achar tão chatinho o não-Ser.
Fez-se em múltiplos
E jogou-se no mar do mundo
Depois de inventá-lo.
Seu divertimento, agora,
É olhar-se
É ver-se
Brincando de apostar corrida
E bater palmas para quem
Chegar primeiro
Tocar em sua própria mão
Piscar o olho
E entrar pra dentro de Deus
Enquanto outro Deus
Saído de si mesmo
Mergulha no mar de novo
E Deus ri quando se vê
Quando se vê vindo
Quando se vê sendo
E Deus chora
E Deus grita
E Deus aperta os dentes
E vocifera
E Deus dá a mão
E Deus quebra as regras
Do próprio jogo
Para ajudar a si próprio
A fazer-se acreditar
Que não é apenas Homem.
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Amo-te agora
Por pensá-lo no futuro
Amo-te em teu auto-esquecimento,
E por sabê-lo
Perdoo quando de mim nada sabes
Amo-te pelo que és!
E por saber que não te sabes
Perdoo-te por não me amares
Por não saber o que de mim é tão teu
Enquanto já sei
O quanto de ti me faz parte!
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Se no encanto do chegar
Me fossem dadas escolhas
Escolheria o oco na multidão
O canto protegido no meio do mundo
Onde vislumbrasse os movimentos
E que a casca de meu ovo
Fosse apenas quebrada
Quando um sorriso surgisse
Inesperado do Outro
E juntos escolheríamos
O perder-se na turbina que gira
Ou o condensar-se no vácuo do claustro.
Algumas coisas são perdidas,
No mato esquecidas...
Voo... não, não voo mais...
fizeram cair o meu chapéu
Ai, ai, ai dói em mim
fizeram-me perder
o chapéu
Parei de escrever:
Minha sombra disse que o que escrevo é tão ruim
Ela me faz parar
Ela me faz surgir
A sombra me guia
A sombra me dá água
A sombra me diz...
A arte está aí
Espera um pouquinho
Espera o tempo parar
Me ajude
Me liberte
Me faça parar de julgar
Me tira do coração a dor de amar
Me liberte da tristeza
Me dessufoque
eu não sei escrever
sou só uma ameba em vias de crepuscular
O Amor Verdadeiro é aquele que diz:
Vem, aqui o mundo é fantástico!
Larga o tédio de tua vida
E corre
Como flecha de índio guerreiro
Abre todas as portas que estiverem a tua frente
Abre, empurra, chuta, arrebenta
Uma atrás da outra
Como se não houvesse limites
Como se não houvesse fechaduras
Como se porta fosse asa
E vem
Não importa a ausência de grana
Não importa as contas que ficam
Não importam os lamentos daqueles que choram
Corre como lebre
E corre como onça
Atrás da lebre que corre
Esqueça da rima de teus poemas
Esqueça das mortes de tuas histórias
E vem
Repita os versos
Repita os sons
Recolhe de tuas caixas
Apenas o necessário
Apenas aquilo que cubra a tua jornada
E vem
E pulsa mais rápido que puderes
E apenas abanes àqueles que te cruzarem
E apenas avises aqueles que o tempo deixar
E vem e corre e vem e corre
Pois meu coração só te espera
Para explodirmos o mundo de felicidade
Para gozarmos em cada canto do planeta
Para dormirmos nos chãos de todos os países
E amarmos, juntos, cada amigo encontrado
Nesta caminhada de amor
E encontro!
E não temas o que dirão
Pois que a todos
O sonho do Amor Verdadeiro
É a pedra mais pura
A jóia mais rara
A palavra mais gasta
Que dá sentido
Ao caminho caminhado triste
No meio da multidão
Culpa
Culpa do uso do cu
Culpa do uso da língua
Culpa do uso do pau
Culpa do uso
Culpa da compra e do não-uso
Culpa da compra
Culpa da compra do corpo
Culpa do corpo
Culpa da porra
Culpa da porra desperdiçada
Culpa da porra do desperdício
Culpa do excesso
Culpa da falta
Culpa por não ter culpa
Culpa pelo excesso de culpa
Culpa pelo tempo perdido
Culpa pelo ócio
Culpa pelo ódio
Culpa por não ter sido
Culpa por não ser:
A culpa vem a galope!
Culpa do
Culpa da
Culpa do
Culpa da
Culpa do:
A culpa é o veredito do verme!
Culpa por
Culpa pelo
Culpa por
Culpa pelo
Culpa por:
A culpa dá o ritmo para a disritmia!
Culpa
Carcaça
Carapaça
Carrapato
Craca
Caca:
A culpa é o carcará!
Culpa
Crrrrr....
Crrrrrrrrrr...
Crrrrrrrrrrrrrrrr...
Crrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...:
A culpa é o catarro!
Escarro
Expurgo
Expilo:
A culpa!
Então achei tudo tão estranho. A gente entrou na casa esverdeada, toda colorida por dentro - e isto depois d'eu ter dado com o nariz de cara na porta, d'outra feita - e todos ficavam mais ou menos assim: te amando! Te olhavam e te amavam, te olhavam e te amavam... Assim, ahãm, assim mesmo! Estranho, né?!, neste mundo tão de sorriso falso e de olhacomosoumelhorquetu. Gozado, né?! Achei tão estranho o jeito dos olhos de querer bem deles.
Depois até descobri que o bonito do olho do moço era inchaço do soco socado, acrescido de tombo caído. Nossa, pensei eu em minhas eternas caraminholas, se até de socozetombos te embelezas, imagina com os brincos, os colares, as cores e cocares dos xamãs, dos deuses, dos reis...
Mas todos eles já moravam em colos de deusas... E eu só ficava na minha admiração quieta e esquivada, nibelungando o ouro dos seus corações.

