E eu que, ingenuamente, achei que o outro
Fosse, de fato, o outro
Sorrio com uma boca que se movimenta num ângulo ambíguo:
Nem riso, nem choro
Uma outra boca que antes não era a minha
E agora pertence ao outro
Que por ser tão estranho e estrangeiro
Agrada-me, além da boca, os olhos
E quando penso em observar-lhe melhor as suas coisas
Percebo-me já invadido e tomado por todos os sentidos
Assim, o que olho é apenas o que era antigo
Apenas as folhas do outono caindo
E não mais o que julguei ser pele se esvaindo
Como sebo derretido.
Casa 12 ou Éter Esquartejado
Era uma casa
Muito fechada
Continha o Tudo,
Continha o Nada
Nem todo o mundo
Entrava, não
Porque era misteriosa
Como um vulcão
Se alguém
Entendeu a Rede
É porque na casa
Um dia esteve
E aquele que
Descobriu o π
Com certeza,
Já esteve ali
Mas era feita
De prata e ouro
Nela escondiam-se
Muitos tesouros
Mas era feita
De ferro e bronze
Na rua do Louco,
Número 12
2012
Tenho medo de que te vás
E me deixes impuro
Neste mar de sentidos obtusos
Quero-te em mim
Como presença constante
Sem necessidade de subterfúgios
Sinto-me perdido sem ti
Sugado pelo cruzamento
Entre pensamento e imagem
Cruzamento sem intersecções
Onde habitas
Neste lugar nenhum
Em que tudo se dá
Fica comigo
Numa ida e volta menos longa
Não tentarei prendê-la
Com a ilusão do poder
Com a confusão do pensar
E...
Pois, não?