março 2019

Olhou para o pé. Analisou o formato irregular da unha e percebeu um pequeno inseto preto caminhando com dificuldade sobre os pelos do dedão. Pensou em matá-lo com o polegar da mão direita, com o mesmo prazer que tinha quando matava os piolhos da sua sobrinha, mas ficou com pena do coitadinho que recém agora conseguia pisar em “terra” firme, porém um pouco oleosa. Lembrou-se que estava atrasado para o trabalho e levantou às pressas para guardar o corta-unhas com um hóspede em seu corpo.
Enquanto abria a porta do guarda-roupa onde guardava na primeira gaveta seus objetos de higiene pessoal - junto às meias, às cuecas e as camisinhas quase vencidas - sentiu as pisadinhas do que sua mente informava-lhe agora ser uma formiga. A cócega mais uma vez deu-lhe um impulso assassino e chegou a levantar a perna na intenção de acabar de vez com aquela frescura de piedade. Como que intuitivamente, o bichinho parou sua caminhada. E por talvez um segundo estavam ambos com um de seus membros inferiores levantados, cada um em sua escala e em sua perspectiva. A diferença era que o homem tinha apenas uma única perna para dar-lhe o apoio necessário, enquanto o inseto ainda tinha mais 7 que lhe suportavam o peso.
Como lembrou-se que estava atrasado no mesmo momento que levantou a perna, a concomitância desses dois eventos fez com que seu corpo se desequilibrasse e ele caísse no chão a um centímetro na parte inferior do guarda-roupa. A consciência da gravidade do incidente fez com que ficasse imóvel por alguns minutos com a bochecha colada no piso de madeira envernizado vendo o reflexo do ventilador de teto que girava lentamente.



A – Então tá!
B – Então tá o quê?
A – Que quê?
B – Que que quê?
A – Oh miséria!!! Então está o quê? O que você quer dizer com quê? Você precisa se aprofundar mais na análise do discurso, hein?
B – Que discurso? Não estou fazendo nenhum discurso!
A – Não estou falando no discurso nesse aspecto.
B – De qual aspecto você está falando, então?
A – No sentido da análise da fala no momento em que se está falando.
B – Quê?
A – Que o quê?
B – Que que o quê?
A – Credo, que porra é essa que circula, hein?
B – O que circula?
A – A nossa conversa, ora.
B – É né?
A – É!
B – Será que não tem alguma coisa a ver com a nossa posição?
A – Como assim? Que posição?
B – A nossa posição, ora!
A – Como assim, cara? A de locutor e interlocutor?
B – Que locutor, mané?! Isso não é programa de rádio!
A – Não estou falando nesse sentido de locutor, mas do ponto de vista da... Deixa pra lá, esquece! Que posição, então?!
B – A nossa posição aqui sentados na sala!
A – Caralho, que zérruelice é essa? O que que o cu tem a ver com as calças, B?
B – Ué, não sei! Não é você que sempre vem com super teorias inusitadas que justificam tudo, mesmo que eu não entenda lhufas? Achei que...
A – Sim, você não entende porque é um azedo acadêmico. Minhas suposições estão sempre embasadas em algum teórico respeitado ou em pressupostos gerais da ciência?
B – (gargalha) Pressupostos gerais da ciência? Se você se olhasse no espelho e visse a sua posição? Parece um galo em vias de galar!
A – Deixa de ser ridículo!
B – Ridículo é você que está sempre...
A – Sempre?!
B – Sempre...
A – Sempre?!
B – Sempre....
A – Sempre?!
B – Sempre...

SILÊNCIO
B – Sempre...
A – Sempre?!

SILÊNCIO
B – Sempre querendo ser...
A – Ser o quê?
B – Ser isso que você é.
A – Isso?
B – Isso ou aquilo, sei lá...
A – Pera lá que agora a circulação tá centrífuga (B gargalha muito e intercala com um som de máquina, girando um dos braços em vórtex como se estivesse imitando uma centrífuga). Como assim sei lá?! Isso ou aquilo?
B – Ou aquilo outro! (Zombando de A, ao perceber sua vulnerabilidade).
A – Ah é?! Então tá!
B- Então tá o quê?!


1
2
3

Textando

Garatujas miúdas
Miojo com shoyu
Chiclete de melancia

Hoje minha poesia
É ficar sentado
Descascando Drummond
e decifrando uma banana

Valdenir Gonçalves

Dos dois pontos que penetraram na largura do nervo, três deles não pularam fora. Claro que antigamente as princesas moravam em castelos. Portanto, no que concerne à Igreja Católica, dois padres começaram a cutucar as ovelhas com palitos de fósforo.
Levando em consideração o que foi dito anteriormente, a literatura não abriu caminho para as sardinhas enlatadas, já que os ornitorrincos não discutem provérbios quando estão almoçando. Eu particularmente já descobri maravilhas enquanto julgava o herói da história, porém assumo a minha homossexualidade para as formigas que gostam de me ouvir de vez em quando, quando não estão muito cansadas.
Agora mudando de assunto, piolhos não regeneram com fins científicos. Eles, ao contrário, discorrem muito bem sobre a panaceia eletrônica da contemporaneidade. Antes de entrar aqui, eu – como bom vegetariano que sou – não conquistei muitos brindes. Quisera eu penetrar dentro das camadas do exercício vernáculo, porém há restrições. E restrições precisam ser respeitadas, não é mesmo? Bom, fora da loucura há sempre alucinógenos penetrantes convidando para um festejar mais democrático. Mas esse é um outro assunto a ser abordado mais tarde nesse artigo acadêmico de segunda ordem.
De qualquer modo, não há como constatar se a Inquisição destituiu o poder do Clero, já que nas alfaces há sempre a possibilidade de encontrarmos alguma lesma escondida. Os outros que lá estavam já não tinham mais como plantar abóboras, portanto resolveram construir uma fábrica de lama! Sendo assim, é melhor esconder aquilo que não se tem do que admoestar as ovelhas com favas de plantação alheia.
Embora me seja custoso retomar alguns assuntos que não me dizem respeito, pensar duas vezes antes de dizê-los custa-me muito mais. Nesse sentido, antes de fugir, preciso colocar chinelos. Se antes de anoitecer não há condições de beber a água do rio - pois a luz que brota do arquipélago é muito tênue - também não serei eu a escolher entre um e outro. Era só o que me faltava! Mas isso são coisas para se dizer depois. Hoje surpreendi-me com coisas boas. Duas doses de whisky me fizeram encontrar a paz. Já não há mais nada para dizer depois que ele chegou e me possuiu pelas costas. Detesto essas coisas de incitação à violência. Se é para ejacular, que encontre na pia um pirulito e chupe. Havia momentos em que a lucidez me brotava, mas querer agora encontrar a paz era um direito não adquirido. De todos os orgasmos que me surgiram, a única dose foi a violeta que quase me curou.

O que é a performance?!
Aquilo que acho que é a performance,
mesmo que equivocadamente,
Ainda assim é performance?

Se o que faço não é performance para o outro,
mas para mim é performance,
Ainda assim
O que faço é performance?

O que é a performance?
Aquilo que os performistas dizem que é performance?
Aquilo que os críticos dizem que é performance?

Andar pelado arrastando uma televisão
Basta para eu ser um performer?

E se eu não quiser terminar o meu pensamento?
Aqui-e-agora
Posso fazer performance com as letras?
Se eu desrespeitar a rrégra
Ortográfica
Morfológica
Sintática
Semântica
Estilística
Vaitomarnoteucuzófila
Posso ser performer?