Olhou para o pé. Analisou o formato irregular da unha e percebeu um pequeno inseto preto caminhando com dificuldade sobre os pelos do dedão. Pensou em matá-lo com o polegar da mão direita, com o mesmo prazer que tinha quando matava os piolhos da sua sobrinha, mas ficou com pena do coitadinho que recém agora conseguia pisar em “terra” firme, porém um pouco oleosa. Lembrou-se que estava atrasado para o trabalho e levantou às pressas para guardar o corta-unhas com um hóspede em seu corpo.
Enquanto abria a porta do guarda-roupa onde guardava na primeira gaveta seus objetos de higiene pessoal - junto às meias, às cuecas e as camisinhas quase vencidas - sentiu as pisadinhas do que sua mente informava-lhe agora ser uma formiga. A cócega mais uma vez deu-lhe um impulso assassino e chegou a levantar a perna na intenção de acabar de vez com aquela frescura de piedade. Como que intuitivamente, o bichinho parou sua caminhada. E por talvez um segundo estavam ambos com um de seus membros inferiores levantados, cada um em sua escala e em sua perspectiva. A diferença era que o homem tinha apenas uma única perna para dar-lhe o apoio necessário, enquanto o inseto ainda tinha mais 7 que lhe suportavam o peso.
Como lembrou-se que estava atrasado no mesmo momento que levantou a perna, a concomitância desses dois eventos fez com que seu corpo se desequilibrasse e ele caísse no chão a um centímetro na parte inferior do guarda-roupa. A consciência da gravidade do incidente fez com que ficasse imóvel por alguns minutos com a bochecha colada no piso de madeira envernizado vendo o reflexo do ventilador de teto que girava lentamente.

O hospedeiro