Olhou
para o pé. Analisou o formato irregular da unha e percebeu um
pequeno inseto preto caminhando com dificuldade sobre os pelos do
dedão. Pensou em matá-lo com o polegar da mão direita, com o
mesmo prazer que tinha quando matava os piolhos da sua sobrinha,
mas ficou com pena do coitadinho que recém agora conseguia pisar
em “terra” firme, porém um pouco oleosa. Lembrou-se que
estava atrasado para o trabalho e levantou às pressas para
guardar o corta-unhas com um hóspede em seu corpo.
Enquanto
abria a porta do guarda-roupa onde guardava na primeira gaveta
seus objetos de higiene pessoal - junto às meias, às cuecas e as
camisinhas quase vencidas - sentiu as pisadinhas do que sua mente
informava-lhe agora ser uma formiga. A cócega mais uma vez
deu-lhe um impulso assassino e chegou a levantar a perna na
intenção de acabar de vez com aquela frescura de piedade. Como
que intuitivamente, o bichinho parou sua caminhada. E por talvez
um segundo estavam ambos com um de seus membros inferiores
levantados, cada um em sua escala e em sua perspectiva. A
diferença era que o homem tinha apenas uma única perna para
dar-lhe o apoio necessário, enquanto o inseto ainda tinha mais 7
que lhe suportavam o peso.
Como lembrou-se que
estava atrasado no mesmo momento que levantou a perna, a
concomitância desses dois eventos fez com que seu corpo se
desequilibrasse e ele caísse no chão a um centímetro na parte
inferior do guarda-roupa. A consciência da gravidade do incidente
fez com que ficasse imóvel por alguns minutos com a bochecha
colada no piso de madeira envernizado vendo o reflexo do
ventilador de teto que girava lentamente.
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Casa 12 ou Éter Esquartejado
Era uma casa
Muito fechada
Continha o Tudo,
Continha o Nada
Nem todo o mundo
Entrava, não
Porque era misteriosa
Como um vulcão
Se alguém
Entendeu a Rede
É porque na casa
Um dia esteve
E aquele que
Descobriu o π
Com certeza,
Já esteve ali
Mas era feita
De prata e ouro
Nela escondiam-se
Muitos tesouros
Mas era feita
De ferro e bronze
Na rua do Louco,
Número 12