Casa 12 ou Éter Esquartejado
Era uma casa
Muito fechada
Continha o Tudo,
Continha o Nada
Nem todo o mundo
Entrava, não
Porque era misteriosa
Como um vulcão
Se alguém
Entendeu a Rede
É porque na casa
Um dia esteve
E aquele que
Descobriu o π
Com certeza,
Já esteve ali
Mas era feita
De prata e ouro
Nela escondiam-se
Muitos tesouros
Mas era feita
De ferro e bronze
Na rua do Louco,
Número 12
2011
Para cada linguagem, uma verdade específica.
A perspectiva histórica é tanto débil
Quanto é dura a sua cabeça em riste
Se ela acredita piamente
Que fora escrita por homens
Enquanto as mulheres
Cosiam e cozinhavam
Ficaria louca
Ao saber, que, na bem da verdade
- embora, verdade verdade só exista na Arte -
As donas e as doninhas
Azucrinavam os tolos
Se faziam de putas, de burras e de songas
Para engendrar esta verdade mentira:
De que seus corpos eram apenas corpos
E sua mente, uma vasilha vazia
E assim costuraram o mundo
Para que o Homem entrasse no eixo
E construísse a verdadeira perspectiva
Que não é histórica, nem científica
Porque não tem foco, nem linguagem.
Como é difícil manter-se fora do casulo!
Aonde estão as borboletas?
Pretensão a minha achar-me o único acasulado
Mas não sabia eu serem tantas as lagartas
A me batucarem a cabeça!
Digo ser eu a lagarta velha
Mas, loucas,
Elas, antes minhas colegas,
Jogam-me pedras
Por ser eu metida borboleta
De hoje em diante
Direi às burras
Que minhas asas são fantasias de carnaval
E que continuo sendo sempre
A sempre tonta lagarta
Assim poderei voar
Escondida
Na escuridão da lua cheia
Entre libélulas, joaninhas, vagalumes e louva-deuses!
Como uma faísca
Como uma lasca de vento
Meu mergulho não é mais de albatroz
Agora enterro-me no mar
E enáguo-me na terra
Rasgo com o vértice feito por meu caduceu
Uma frincha nas ondas
Espiralada com a força de minhas fagulhas
E vou num voo aquático
E lá
Danço uma falsa valsa
Com os seres translúcidos
De luz azul
Valdenir Gonçalves
Antes eu não me cabia
Mal o mundo me enchia
E todos os meus líquidos e fluidos
Esparramavam-se fora de mim
Num transbordar de água
Desperdiçada
Achei que o meu total fosse o cheio,
E o que dele sobrasse
Fosse apenas o resto
Como se eu fosse uma conta matemática.
Resolvi virar a equação
De cabeça para baixo
E hoje meu excesso é parte
Irresistível do todo
E calculo meu mundo
ora com giz
ora num ábaco abandonado
Valdenir Gonçalves
Então ele me diz:
"- Me liga e a gente se encontra, e a gente se vê e a gente se come!",
Como se pensasse:
"- Ah, já que não consigo mais encontrar peixes apreciáveis e dignos de meu paladar refinado, resolvi mordiscar este gélido krill."
Então, respondo-lhe:
"- Não, obrigado, hoje à noite tenho um encontro com uma ostra dentro do ventre de uma baleia!"
Valdenir Gonçalves
Sou como se fosse um representante leigo e estúpido de Mim mesmo.
Represento-Me ao mundo como menino que desce na essência, olha irrequieto e impaciente para o rosto sem face de meu Eu.
E volta como um mergulhador sem escafandro que nem tempo teve de olhar o fundo do mar.
E se me perguntam qual a minha beleza, respondo que há cores belas, há distintas formas, há coisas que se mexem inquietas e reluzentes lá no fundo de Mim, porém não tenho ideia de Minhas tonalidades, não sei dos Meus ângulos, tampouco conheço a força que Me dá luz e movimento.
Valdenir Gonçalves
É claro que não tiveste sequer um vislumbre do quanto me tocaste.
Creio que me imaginavas um dândi antes de conhecer-me.
Ou talvez um ser mais profundo.
Compreendo a tua decepção ao encontrar-me menino, cheio de dúvidas e incertezas.
Compreendo a tua decepção ao encontrar-me senhor, cheio de seriedades e silêncios carrancudos.
Queria dizer-te o quanto o universo era paradoxal e o quanto os meus movimentos inquietos eram uma extensão de minha linguagem capenga.
Meu corpo, pequeno e ágil, era minha única poesia e enquanto passavas tua mão em minhas costas e enquanto minha cabeça descansava em tuas pernas, achei que era compreendido.
Foste embora, apesar de nunca teres chegado.
Recuso-me a acreditar que este você-pós seja o mesmo que me acolhera com os olhos e as mãos.
Este você-pós que me ignorou como se minha meninice fosse infantilidade,
como se minha velhice silenciosa fosse ignorância.
Farei de teu descaso o silêncio sábio que surge quando não há palavras a serem ditas.
Farei de teu esquecimento, o desapego dos esclarecidos.
E, assim, esqueço-me e desapego-me de ti.
És, agora, pó.
E tua profundidade tornou-se quimera.
E, enquanto te dispersas na atmosfera em inúmeras partículas,
Condenso-me em matéria pesada e afundo-me.
Valdenir Gonçalves








