É claro que não tiveste sequer um vislumbre do quanto me tocaste.
Creio que me imaginavas um dândi antes de conhecer-me.
Ou talvez um ser mais profundo.
Compreendo a tua decepção ao encontrar-me menino, cheio de dúvidas e incertezas.
Compreendo a tua decepção ao encontrar-me senhor, cheio de seriedades e silêncios carrancudos.
Queria dizer-te o quanto o universo era paradoxal e o quanto os meus movimentos inquietos eram uma extensão de minha linguagem capenga.
Meu corpo, pequeno e ágil, era minha única poesia e enquanto passavas tua mão em minhas costas e enquanto minha cabeça descansava em tuas pernas, achei que era compreendido.
Foste embora, apesar de nunca teres chegado.
Recuso-me a acreditar que este você-pós seja o mesmo que me acolhera com os olhos e as mãos.
Este você-pós que me ignorou como se minha meninice fosse infantilidade,
como se minha velhice silenciosa fosse ignorância.
Farei de teu descaso o silêncio sábio que surge quando não há palavras a serem ditas.
Farei de teu esquecimento, o desapego dos esclarecidos.
E, assim, esqueço-me e desapego-me de ti.
És, agora, pó.
E tua profundidade tornou-se quimera.
E, enquanto te dispersas na atmosfera em inúmeras partículas,
Condenso-me em matéria pesada e afundo-me.

Valdenir Gonçalves



Quimera Química